quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Pinheirinho


Uma história que ainda está sendo escrita com muito sangue inocente. Aqui no Brasil. E a imprensa não está noticiando. Não podemos nos manter aquém a isso. Vou contar, para os que quiserem lê-la: o problema agrário do Brasil todos nós conhecemos. A estrutura ainda é dos tempos de Brasil colônia, onde poucos homens são donos e milhões trabalham em condições similiares às da época da escravidão. Muitos não suportam serem explorados e saem das terras. Sem educação de qualidade, sem formação profissional e sem opção de trabalho, essas pessoas dependem da terra para viver. Eles sabem plantar, colher e se utilizam disso para se sustentarem. Mas as terras têm donos. E número absurdo delas nem são utilizadas. Então esses trabalhadores do campo, sem terra, se unem e se organizam - normalmente no MST - e "invadem" uma terra que não está sendo utilizada. Uma terra inútil ao dono, mas que a eles será é a fonte de alimentos que os mesmos irão plantar.

A extrema desigualdade da distribuição de terras no Brasil é reflexo da covardia dos nossos políticos e da nossa população: nós NUNCA fizemos uma reforma agrária. Todos os países europeus, vários os países da América Latina e até os EUA já fizeram reforma agrária. O Brasil não. A imprensa direitista prefere defender os donos dos infinitos hectares de terras inutilizadas, enquanto chama de marginais aqueles que se apropriaram de algo que é essencial para si e que não está sendo utilizada pelo "dono".

Isso aconteceu em Pinheirinho, na cidade de São José dos Campos, São Paulo. Um brasileiro rico, de nome árabe e proprietário de um monte de terras que ele não as usa para nada. Ele não é fazendeiro, é especulador. Como funciona? Ele compra a terra e fica especulando. Fica esperando a terra ser mais valorizada, o preço sobe e ele vende. Aí compra mais terra e faz a mesma coisa. Compra para vender mais caro. É para isso que as terra de Pinheirinho serve. O nome desse cara é Naji Nahas. Certa vez ele conseguiu, sozinho, quebrar a bolsa de valores do Estado do Rio de Janeiro. Eu disse quebrar a Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, só com especulação de terras. Já foi preso duas vezes por crimes economicos do tipo, está devendo aproximadamente 30 milhões ao Estado brasileiro e respondendo mais um processo criminal. É o dono de Pinheirinho.

Em 2004 um grupo Sem-Terra entrou no terreno inutilizado. Lá eles construiram um bairro e, hoje, cerca de 9 mil pessoas moram lá e tiram o seu sustento daquela terra que, faço questão de destacar, era inutilizada pelo seu dono. Mas em outubro de 2011, há 3 meses, o preço da terra subiu. O proprietário das terras quis vendê-las e, para isso, precisava colocar as cerca 9 mil pessoas para morar na rua. E não, ele não teve pena. O prazo dado para a desocupação foi até o dia 13 de Janeiro de 2012. Ou as famílias saiam da terra ou seriam expulsas pela Polícia Militar. Isso aí, a polícia estadual recebeu ordem da justiça (juíza Márcia Loureiro, da 6ª Vara Cível de São José dos Campos) e autorização do Governo de São Paulo (o governador é Geraldo Alckmin, do PSDB), apoiados pela Prefeitura de São José dos Campos (cujo prefeito é Eduardo Cury, também do PSDB) para "atuar na reintegração de posse das terras" de Naji Nahas. Mas a população pinheirinhense avisou: "não iremos sair".


Lembram de Antônio Conselheiro em Canudos? Está acontecendo de novo.

É revoltante assistir às reportagens de empresas e profissionais sem compromisso com justiça social. A Rede Globo ignorou o caso até quando pôde, mas a sua afiliada em São José dos Campos, a TV Vanguarda, deu cobertura ao caso e já anunciava a linha de reportagens que a Globo exibiria nos dias seguintes. Assistir à algumas dessas reportagens causa revolta em qualquer pessoa que esteja razoavelmente informada sobre o que está se passando no Pinheirinho e está sendo ignorado por este mesmo veículo de imprensa. Acho que a emissora deu, sim, motivos para que a população se voltasse contra ela.

Na madrugada do dia 21 para o dia 22 de Janeiro a Polícia Militar pegou a população desprevenida, dormindo, e invadiu Pinheirinho. Há denúncias de pelo menos 7 moradores assassinados, além dos feridos, mas a PM está sumindo com os corpos. As vítimas estão sendo registradas como "desaparecidos". Dilma ensaiou fazer barulho, mas logo passou a ignorar o que está se passando no interior de São Paulo. A ação policial se manteve e, em dois dias, todo o bairro foi demolido para evitar que a população queira voltar às terras.


Hoje a população já foi toda removida para acampamentos montados pelo governo estadual. As condições são precárias, os moradores estão revoltados, os assassinatos continuam, a barbárie de Pinheirinho tomou proporções internacionais, a ONU já emitiu nota de repúdio ao massacre que aconteceu nessas terras. Mas a grande imprensa brasileira continua calada, como se nada estivesse acontecendo. Dilma também segue sem se manifestar. E a população brasileira permanece inerte durante mais essa.

"Palavras cruas relatam.

Isso é mais do que o motivo pelo qual os árabes se matam." (Emicida)


Um comentário:

  1. Muito louvável essa iniciativa de explicitar e publicitar as arbitrariedades, para não dizer todos os adjetivos que essa ação traz em si, cometidas em Pinheirinho. Aproveito para compartilhar o relatório preliminar “Violação de Direitos Humanos na Ocupação Pinheirinho (São José dos Campos/SP): Ação de Reintegração e Tratamento dos Despejados”, elaborado por: Brigadas Populares, Justiça Global, Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência, para contribuir com a discussão.

    xa.yimg.com/kq/groups/18375436/529600387/name/Pinheirinho_relatorio_peliminar_da_violencia_institucional.pdf

    Abçs, Tania Macêdo

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